sábado, 11 de maio de 2013

Madame Satã: uma análise a partir dos conceitos de interseccionalidades e categorias de articulação


MADAME SATÃ: UMA ANÁLISE A PARTIR DOS CONCEITO DE INTERSECCIONALIDADES E CATEGORIAS DE ARTICULAÇÃO

Janaína Freitas[1]

"Esse mulato forte é do Salgueiro.
Passear no tintureiro é o seu esporte,
Já nasceu com sorte e desde pirralho
Vive às custas do baralho,
Nunca viu trabalho.
E quando tira um samba é novidade,
Quer no morro ou na cidade,
Ele sempre foi o bamba.
As morenas do lugar vivem a se lamentar
Por saber que ele não quer se apaixonar por mulher."
(Noel Rosa- Mulato Bamba)
            O presente trabalho tem como objetivo analisar o conteúdo do filme "Madame Satã" a partir do artigo "Interseccionalidades, categorias de articulação experiências de migrantes brasileiras" da pesquisadora Adriana Piscitelli.
            O conceito de interseccionalidades  (intersectionalities) e categorias de articulação surgem no debate feminista a partir dos anos 80, quando algumas autoras  como Scott (1988), Butler (1990), Strathern (1988), Haraway (1991) publicam textos críticos acerca da temática de gênero. Estas obras - que passam a atuar como referências no debate corrente - estavam propondo uma desconstrução das ideias de sujeito universal autoconsciente do feminismo, dando lugar a novas formas de problematizar o gênero. Olhares críticos, acentuadamente influenciados pelo conceito de poder de Foucault (1977), que pensavam a produção de saber e poder, de determinado contexto sócio-histórico, como práticas relacionais producentes dos sujeitos.
            Na esteira desses deslocamentos teóricos do debate feminista, como vimos, é que emergem  as noções de articulação e interseccionalidades. Essas categorias "aludem à multiplicidade das diferenças que, articulados com gênero, permeiam o social."  Visa a analisar os marcadores sociais (classe, raça, gênero, nacionalidade, regionalismos, sexualidades, etc.) que se articulam, em contextos singulares, para produzir as diferenças  e desigualdades. No entanto, autoras  que são referência nessa abordagem teórico-analítica como Brah, MaCklintock, Crenshaw se utilizam destes termos a partir de formas singulares de conceber as diferenças, as ideias de poder e agência do sujeito (agency).

            Porém, utilizar-se-á nessa análise a abordagem construcionista, compartilhada por autoras como MaCklintock e Brah. Esta linha destaca a dinâmica e fluidez dos sujeitos em contraposição a uma ideia de identidade social estanque e coerente. Além disso, percebe as relações de poder como relacionais, reconhecendo, portanto, a possibilidade de agência do sujeito. Segundo a primeira autora, categorias como gênero, classe, etnia não existem isoladamente, "nem podem ser montadas em conjunto como se fosse um lego". Contrariamente, devem ser pensadas a partir das articulações que estabelecem umas com as outras.
                                
   Ao analisar as categorias articuladas, MaCklintock explora políticas de agência diversificadas, que envolvem coerção, negociação, cumplicidade. recusa, mimesis, compromisso e revolta. (PISCITELLI, 2008)

            A teórica indiana Avtar Brah também trabalha com políticas de agência, orientando-se simultaneamente pelos conceitos de interseccionalidades e categorias de articulação. Em 1996, situada nos estudos sobre gênero, etnicidade, e sexulidade no contexto do feminismo negro inglês, publica Cartographies of Diaspora, trazendo uma série de inovações para o movimento feminista. A autora propõe uma superação do conceito de patriarcado; optando por utilizá-lo somente nos contextos onde as mulheres são subordinadas.
           Brah visa a formular uma teoria consistente que estude a articulação entre racismo, gênero e classe a partir de uma análise contextual. Afirma que essas interconexões precisam ser pensadas como posições de vários racismos, uns em relação aos outros. A partir dessa análise de relações racializadas, a autora rejeita as dicotomias positividade/ negatividade, inclusão/ exclusão, a fim de dar lugar a um olhar crítico que dê conta das complexidades das relações sociais, "espaços de profunda ambivalência".
            O filme, dirigido pelo cineasta Karim Ainouz, estrelado pelo ator baiano Lázaro Ramos, retrata a vida do artista mineiro João Francisco dos Santos, conhecido como Madame Satã;  apelido  que fazia referência  ao filme homônimo de Cecil B. DeMille.
            João Francisco dos Santos morava no bairro da Lapa, Rio de Janeiro, na primeira metade do século XX. Negro, pobre, boêmio, homossexual, presidiário, pai adotivo de sete filhos, terceiro-mundista, malandro, artista. O lendário personagem da boêmia carioca carregava uma multiplicidade de marcas que, no contexto brasileiro dos anos 30 e até hoje, são vistos como sinônimos de exclusão e subordinação, em muitos espaços.
            João viveu na sociedade da Era Vargas (1930-1945). Extremamente marcada por um caráter de culto ao trabalho, ao mesmo tempo em que se acirravam as dificuldades para consegui-lo. A cultura marginal, portanto, era vista como uma patologia social. As tentativas de exterminá-la desdobravam-se em políticas de assepsia, que previam o desmanche dos morros, a abertura das avenidas e a demolição dos cortiços.  
            No filme, João trabalhava na função de camareiro para a vedete Vitória (Renata Sorrah) e a admirava profundamente, ele também tinha o sonho de ser artista. No Cabaré Lux, onde Vitória apresentava um número de Josephine Baker, João (nos bastidores) idolatrava-a e sabia de cor cada palavra da música, cada gesto do número. Este trabalho e, certamente, o efervescente contexto artístico-cultural da Lapa dos anos 30 influenciaram o desejo de João tornar-se um artista.
            A crítica, feita pela teoria da interseccionalidades, como vimos, visava a superar a ideia de "superposição de opressões", na qual o sujeito era sempre vítima da subordinação gerada pelos seus marcadores sociais. Nesse sentido, estas novas perspectivas analíticas são sugestivas para refletirmos sobre como a intersecção das diferenças produziu as relações nas quais  Madame Satã estava situado.
            Apesar de sua situação singular, o personagem é apresentado no filme de modo à transcender alguns destes condicionantes sociais. Madame Satã tentou inventar um outro modo de estar no mundo. O próprio apelido adotado por João Francisco revelava esta tentativa de embaçar a integralidade de uma identidade: Madame faz alusão a feminilidade, sofisticação, enquanto Satã sugere masculinidade, força, destruição. Fazia uso de estratégias corajosas e criativas para resistir ao que costumava ser visto como um contexto de dor e exploração. Produzia linhas de fuga através das performances de gênero nos bares da Lapa, do desacato à autoridade e de suas idas e vindas à prisão.  Portanto, como sugere Piscitelli (2008),

A diferença nem sempre é um marcador de hierarquia nem opressão. Uma pergunta a ser constantemente feita é se a diferença remete a desigualdade, opressão, exploração. Ou, ao contrário, se a diferença remete ao igualitarismo, diversidade, ou a formas democráticas de agência política.  

            Por fim, a questão central do filme é mostrar que alguém como Madame Satã- pobre, preto, gay, artista, criminoso - teoricamente sem possibilidades de superar sua posição "subordinada" conseguiu, movido pelo desejo, realizar seu sonho, produzindo focos de resistência; um corpo-intifada. Além disso, a representação da vida de Madame Satã, bem como as teóricas da interseccionalidade nos convidam a revisitar nossos instrumentos de análise teórica a fim de que possamos fazer a tentativa de abarcar as idiossincrasias tanto no campo de estudos feministas quanto nas demais áreas de pesquisa.


Referências:

PISCITELLI, Adriana. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras. Sociedade e Cultura, 2008, v.11, n.2, jul/dez, p. 263-274.




[1] Aluna do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

domingo, 14 de abril de 2013

A positividade do negativismo

Eu pensava que a falta de empatia das pessoas provinha da sua condição política, econômica e social favorável. Já esperava que um discurso discriminatório viesse de um homem, branco, de classe econômica superior e heterossexual.

Aí eu descobri que mulheres brancas e heterossexuais também promoviam posições discriminatórias, independente da sua classe econômica. Com o tempo, descobri que não-brancxs, heterossexuais, eram igualmente pouco empáticos. 

Já não mais me surpreendi, mas ainda me pus a indignar, quando descobri que não-brancxs, não heterossexuais, também detinham pouquíssima empatia com os demais, mesmo quando de classes econômicas desfavorecidas. Daí, então, dei-me por conta que empatia é característica de poucxs, e é exatamente isso que a faz tão bela... Decidi parar de me indignar com o óbvio, ter pouca expectativa sobre as pessoas e apenas me surpreender com ações positivas. 

Evidentemente, diante de ações negativas, continuo a indignar-me, embora isso não mais me entristeça com tanta força como antes. Eu poderia abraçar o discurso setentista do "viva rápido e morra jovem", contudo, saberia que isso seria fugir da luta... E a luta, amigxs, é a única coisa que me faz viver ultimamente. Por isso abraço-a. Por isso,

há braços. 


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Por que eu dei pulos de alegria quando descobri que a Daniela Mercury é sapatão



Daniela Mercury e Malu Viçosa - felizes

Essa semana, vagando pela internet, vi a notícia de que a Daniela Mercury assumiu o relacionamento dela com uma mulher, que a Adriana Calcanhotto oficializou a relação dela com outra... E adivinhem só: achei o máximo. Fiquei feliz. Fiquei orgulhosa.
"Mas isso não é da conta de ninguém, não diz respeito a mim e eu não me importo."
Ok, pode até ser.
Mas, se por esse motivo a notícia não deveria existir, também não deveriam existir as seguintes notícias:
e uma infinidade de outras na mesma linha.
Ora, se um casal hétero pode gritar pra todo mundo que casou, que tá junto, que se ama, enfim; se um casal hétero pode dar um festão de casamento e sair em jornal, em revista de fofoca, em site de notícia; se um casal hétero aparece junto pela primeira vez em público e se faz disso uma grande coisa; se um casal hétero se separa, briga, se trai e isso vira manchete (e por aí vai), por que não poderia acontecer o mesmo com quem é gay/lésbica?
Adriana Calcanhotto e Suzana de Moraes - felizes
Nessa época de Felicianos, Malafaias e Bolsonaros, tanto anônimos quanto famosos, dizer "sou gay/lésbica/bi/trans+, eu amo, eu tenho minha vida e tô feliz" é uma forma de dar visibilidade à população LGBT+. "É, tão querendo aparecer, né? Querem mostrar pra todo mundo sua sem-vergonhice e querem ter privilégios e blablablá." Não, não dessa forma que tem muita gente pensando.
A visibilidade da qual eu tô falando aqui é aquela que precisa acontecer pra que se lembrem da gente. Pra que se lembrem que a gente também quer poder casar, também quer sair na rua de mão dada, também quer comprar casa junto, quem sabe ter filho, ter plano de saúde e, se precisar, se separar. E, se for o caso de uma separação, a gente quer que ela seja justa, que se decida o que fazer com a casa, o carro, os filhos e o plano de saúde da mesma forma que acontece quando um casal heterossexual se divorcia.
A visibilidade é importante pra lembrarem que a gente também quer ter direitos. É essencial pra que saibam que a gente existe. E, sabendo que nós existimos − e em tão grande quantidade (não, a população LGBT+ não surgiu há poucos anos, não é uma praga se espalhando e não tá "todo mundo virando gay") − talvez possa começar a acontecer o que eu chamo de "convencimento das pessoas de que ser LGBT+ é comum e natural". E aí isso, junto com outras medidas necessárias para diminuir o preconceito tanto no Brasil quanto no resto do mundo, vai dar cada vez mais segurança pra quem tem medo de andar na rua vestido do jeito que gosta, pra quem tem medo de sentar abraçado com quem ama no banco da praça, pra quem morre de medo de contar pra família que é gay (e quem é que tem medo de contar que é hétero?), pra quem não é chamado pelo nome social levantar a voz e dizer "meu nome é ____, eu não gostei de como tu me chamou e por favor, usa os pronomes certos".
Ivete e Xuxa - felizes

Enfim, quem tá dentro do armário deveria se sentir seguro pra sair, se quiser. Sem medo. Até que não vai mais ser um grande bafafá quando se descobre que "fulaninho é uma bicha" ou "beltraninha é sapatão".

E eu espero ansiosamente pelo dia em que não vai ter diferença nenhuma, pra ninguém, se a Xuxa casou com o Luciano Szafir ou com a Ivete Sangalo.



Mariane Cast, estudante de Artes, atuante no G8-G,
lésbica nas horas vagas e não-vagas

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Breve comentário sobre um povo sem memória. Ditadura gay?

Ontem, dia 1° de abril, na palestra de abertura da V Semana de Direitos Humanos da UFRGS, Marcos Rolim encerrou sua fala no painel que relembrava o início da Ditadura civil-militar ("uma noite que não acabou", conforme corretamente afirmava o nome do painel) fazendo referência à ascensão de bancadas religiosas fundamentalistas no congresso e demais instâncias de poder.

Achei interessantíssimo e inevitável de enfatizar essa fala, justamente porque estamos, de fato, diante de um contexto político e social que se utiliza das mesmas ferramentas e dos mesmos meios que, muito se acredita, foram condenados historicamente e hoje reemergem por trás de discursos mascarados. Para justificar um golpe de Estado (revolução, diriam xs civis orgulhosxs - ou inglórixs, como preferirem), alegou-se defesa da nação, que viria a ser "tomada" por "comunistas raivosxs" . Montou-se, a partir dessa alegação covarde, uma força desproporcional com alvo direto a uma parcela específica da população, sob o argumento de que estariam defendendo o país de uma ditadura.  Digo covarde porque, afinal, o futuro se encarregaria de provar a real intenção daquelxs que chegaram ao poder - qual tenha sido, de enriquecer ilicitamente e ascender politicamente.  (I)logicamente, essa defesa se daria através de outra ditadura. Ironia do destino ou não, o senso-comum atualmente repete o mesmo argumento viciado para promover atos discriminatórios e discursos de ódio contra toda a comunidade que não segue o sistema heteronormativo. É a "ditadura gay", alegam xs papagaixs do sistema.

O que vemos efetivamente, contudo, é justamente o mesmo ciclo retrógrado de um passado que não conseguimos superar: a deturpação da verdade por quem detém poder a fim de manter o status quo. Quero dizer, através de meios e instrumentos muito semelhantes aos ditatoriais (projetos de leis garantindo privilégios para xs poderosxs, uso da mídia para alienar a população), uma bancada se fortalece e paulatinamente passa por cima de direitos fundamentais, fazendo-nos inevitavelmente relembrar uma noite que, cada vez mais clareia na nossa mente, realmente ainda não acabou. Um povo sem memória, é essa a conclusão lógica a que chegamos. Cabe a nós, no entanto, decidir se queremos reproduzir a mesma triste história do passado, em que deixamos uma geração inteira se (sub)desenvolver sufocada por ideais repressores; ou então desejamos, enquanto há forças de representação disponíveis, acordar de um sono profundo antes que se torne pesadelo. Felizes foram aquelxs que interromperam as palavras de Marcos Rolim na noite de ontem para aplaudi-lo, pois assim deixamos claro que, sim, estamos de acordo: a bancada fundamentalista não nos representa, não enquanto violentamente quiserem denegrir a resistência ao sistema heteronormativo!

Há braços, há luta.

sábado, 30 de março de 2013

Direito à Identidade na Semana de Direitos Humanos

Amores e amoras,

a partir do dia 1º de abril, nessa próxima semana, estará acontecendo, na faculdade de direito da UFRGS, a V Semana de Direitos Humanos. O G8-Generalizando está, junto com os demais grupos do SAJU, participando da construção desse evento que promove abertamente à comunidade uma série de discussões através de painéis de debate, oficinas e intervenções.

Já na data de abertura, segunda-feira, ocorrerá nossa oficina sobre criminalização da homofobia. Acessem o evento no facebook e vejam maiores informações. Além disso, na quarta-feira, dia 03/04, às 19h, teremos nosso painel tratando da identidade trans+¹, sob o enfoque do projeto Direito à Identidade, com a participação dxs nossxs queridíssimxs amigxs Marina Reidel, Lucas Goulart, Luísa Stern e Carina Macedo.

Para quem não lembra, o projeto Direito à Identidade surgiu ainda no final de 2012, a partir de uma parceria firmada com a ONG Igualdade-RS. A ideia foi de acolher uma demanda de grande necessidade e ainda de difícil acesso para a comunidade trans+, corroborando a proposta sajuana de acessibilidade jurídica para a população e promoção dos direitos humanos sob uma ótica crítica. O projeto foi executado em janeiro de 2013, com a ajuda também de parceria firmada com o NUPSEX (Núcleo de Pesquisa em Sexualidade da UFRGS), e consistiu, basicamente, no ajuizamento de nove ações de retificação de registro civil. Os resultados foram extremamente satisfatórios, pois em menos de duas semanas obtivemos sentenças parcialmente procedentes - num sistema judiciário conhecidamente lento - e, em menos de um mês, com os devidos ajustes técnicos necessários, as pessoas que participaram do projeto tiveram seus nomes no registro civil alterados.

É importante salientar o que foi, de fato, nosso Direito à Identidade. Muito além do que simplesmente alterar o nome, preocupamo-nos com a força política e social de tudo o que estava acontecendo. Na construção dos pareceres psicológicos, tratamos de desconstruir ideias retrógradas que visam, por exemplo, as identidades não cisgêneros² como patologias. Posicionamo-nos com convicção sobre o direito individual de ser quem somos, não apenas no tangente à dignidade da pessoa humana, mas principalmente no âmbito privado de crer que o Estado não pode intervir na identidade do indivíduo. Alegamos os efeitos negativos por que passam aquelxs cujo nome não está de acordo com o que são, como constrangimentos públicos no acesso a serviços básicos e primordiais (saúde, educação), dificuldades agravadas para conseguir emprego e tantos outros problemas. Tudo isso fortalecido pelo nosso ordenamento, que sempre tendeu a marginalizar ainda mais as personalidades desviantes do sistema heteronormativo. No entanto, os resultados rápidos do projeto nos deram um pouco de esperança em relação ao nosso futuro. Pelo menos sobre essas questões, criamos uma jurisprudência importante, a qual esperamos não ser mais necessária em pouco tempo – afinal de contas, esperamos por um Brasil onde todxs tenham a possibilidade assegurada para manifestar sua identidade sexual e de gênero sem precisar passar por violências simbólicas e institucionalizadas, a começar pela não obrigatoriedade de um processo judicial para alterar o nome daquelxs que não querem seguir a heteronormatividade.

Isso, contudo, sabemos, é apenas o fortalecimento de uma luta que já vem de alguns anos, e não o começo ou o resultado final.

A fim de fomentar o debate sobre essas questões e dar ainda mais voz àquelxs que o sistema insiste em calar, reforço o convite ao nosso painel de quarta-feira, no salão nobre da faculdade de direito da UFRGS. Confiram as demais palestras clicando aqui e esforcem-se para comparecer.

Há-braços e voz por um mundo melhor. 

1. Leia mais sobre pessoas cis e cissexismo em: http://transfeminismo.com/o-que-e-cissexismo/
2. O termo "trans+", com o sinal de adição, é utilizado como abreviação para expressar uma multiplicidade de identidades como transexual, transgênero ou travesti. O sinal de + é adicionado para transformar o termo trans em um termo "guarda-chuva", englobando todas as identidades trans dentro e/ou fora do sistema heteronormativo binário de gênero. Para mais informações, clique aqui

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Orgasminho #2

Resquícios de um niilismo reprimido.

A infância. Por toda a infância você vai aprender a seguir padrões, andar na linha... Fazer a coisa certa, como dizem, sabe? Muitas atitudes suas serão ignoradas, afinal de contas, você não é maduro o suficiente para compreender seu sentimento. Ninguém vai querer ouvir suas angústias. Ora, crianças lá vão ter motivos para ter angústias? Você vai aprender, finalmente, a engolir o choro e seguir em frente. Vai tirar notas boas, o que não vai ser mais do que sua obrigação. Vai fazer algo errado, e farão te fazer pensar que esse erro é o pior do mundo. Seus pais brigarão por você: não para tê-lo, mas para saber de quem é a culpa pelos seus erros. Não chegarão a uma resposta e você será considerado um monstro. Eles acordarão e fingirão que nada aconteceu, e se você não der bom dia com "uma cara bonita", ficará de castigo e não poderá ver seus amigos.

Ai você segue em frente. Termina o colégio - se conseguir chegar até lá - e todos ficam felizes... Só no dia da festa. No dia seguinte, mais cobranças. A roupa correta, as companhias decentes, os bons modos. O melhor lugar para estudar, é claro, também. Ou então o bom emprego. Ou simplesmente o emprego, para - sabem como é - não virar um vagabundo.Ou uma vagabunda. Aí você acorda de madrugada, num dia aleatório, e olha para trás. Descobre que não aprendeu direito a engolir o choro e... chora. Chora desesperadamente por descobrir que, ao contrário do que dizem os dramáticos, sua vida não foi uma mentira. (Se fosse uma mentira, você acordaria desse coma e passaria a ser feliz). Isso tudo foi simplesmente a verdade: você não é nada além do que permitiram que você fosse. E jamais será algo além disso. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Direito à Identidade: Viva seu nome!

Pessoal, o G8-Generalizando tem orgulho em apresentar o mais novo projeto de luta a favor dos direitos sexuais e de gênero. Para quem não tá ligadx, dá uma conferida no evento do face e confirma presença! (clica aqui pra ir pro evento no Facebook!)

O nome é um direito de todxs. No Brasil, 29 de janeiro é o Dia da Visibilidade Trans.

Para celebrarmos o Dia Nacional da Visibilidade Trans, o G8-Generalizando, a Igualdade-RS e o NUPSEX/UFRGS promovem um mutirão de ações judiciais com o objetivo de conquistar um direito que não é assegurado para travestis e transexuais.

Nessa data, será realizado um ato público em prol da legitimidade dos indivíduos viverem de acordo com o nome que se identificam, e serão entregues diversos processos de Retificação de Registro Civil no Foro Central da cidade de Porto Alegre. É o projeto Direito à Identidade: Viva seu nome!

O evento servirá para colocar em debate a importância de que o Estado ofereça os recursos necessários para que a realização desse tipo de processo ocorra sem os custos, por vezes exorbitantes, e o desgaste excessivo que travestis e transexuais tem tido que arcar para teu seu nome reconhecido, pois hoje em dia isto só é possível ser feito por meio de processo judicial.

Também servirá para chamar a atenção do Supremo Tribunal Federal e do Poder Legislativo para esse problema, pois desde 2010 que a ADIn 4275 tramita no STF, sem perspectiva de julgamento próximo, e temos vários projetos de Lei tramitando no Congresso Nacional, novos e antigos, sem a perspectiva de aprovação. Enquanto isso, o Brasil vai ficando para trás em relação a países como Espanha, Argentina e Uruguai, onde já é possível que travestis e transexuais possam alterar seus nomes diretamente em cartório, sem a necessidade de recorrer ao Judiciário.

Finalmente, o G8-Generalizando, a Igualdade-RS e o NUPSEX se propõem, para além do dia 29 de janeiro, a continuar realizando o processo de troca de nome de maneira gratuita para a população de travestis e transexuais e debatendo o assunto em outras instâncias, marcando nosso desejo por uma sociedade sem preconceitos, na qual cada indivíduo tenha autonomia para realizar as escolhas de como viver sua própria vida.

É através do nome que nós nos identificamos e legitimamos nossas vidas em sociedade. Somos recorrentemente remetidos a nossa identidade civil e é através dela que garantimos nosso acesso aos diversos ambientes e exercemos nossa cidadania.

Ter um nome é segurança de pertencimento no mundo. No caso específico da população de travestis e transexuais, é da negação desse direito e da obrigatoriedade de usar um nome que não corresponde à nossa verdadeira identidade, que decorrem diversas outras formas de discriminação.

Por isso, quando nós não nos encontramos representadxs pelo próprio nome e escolhemos viver através de outra designação, é essencial que o Estado reconheça o direito à identidade, devido ao enorme constrangimento causado a quem é constantemente chamado por um nome com o qual não se identifica.

Aqui fica nosso convite a todxs para que vivam esse dia conosco, celebrando todos os nomes que amamos e que nos fazem ser quem somos!

ATO DO DIA 29/01:

O QUÊ: Oficina e concentração para caminhada  ao Foro Central de Porto Alegre, para entrega de ações de alteração no registro civil
QUANDO: Dia 29/01, com oficina e concentração das 13h às 15h, e caminhada ao Foro Central a partir das 15h
ONDE: Usina do Gasômetro, sala 4, no Mezanino.

Vem com a gente!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Orgasminho #1

Eu odeio.

Eu odeio quando você me olha na rua.
Eu odeio o modo que você me encara.
Eu odeio quando você me olha e não sabe o que pensar.
Eu odeio a cara confusa que você faz quando passa por mim.
Eu odeio quando você resolve sua confusão gritando.
Eu odeio mais ainda os seus sussurros.
Eu odeio quando você sorri enquanto faz isso tudo.
Eu odeio o escárnio em sua voz.
Eu odeio quando você quer me machucar com palavras.

Eu odeio o fato de você conseguir.

Orgasminhos!

Queridxs leitorxs!

É com o coração cheio de orgulho, a cabeça cheia de ideias e o corpo inteiro tomado de prazer que apresentamos uma nova seção do blog do G8-G: os orgasminhos. Queremos compartilhar aqui pequenos pensamentos, frases, imagens, citações, sentimentos. Pequenos retalhos de pensamentos que, ainda que expressos em poucas palavras, mexam com a gente e, com sorte, mexam com vocês também. Vale falar de tudo: amor, dor, política, música, ódio, esperança. A regra é uma só: que seja intenso. Forte. Pulsante. Que seja, enfim, um orgasminho.

sábado, 24 de novembro de 2012

Última chamada: Ocupe seu corpo na XVI Parada Livre, VI Marcha Lésbica e Dia Internacional de Luta Contra a Violência à Mulher




No domingo, dia 25/11 – mais precisamente: amanhã -, estaremos todxs no Parque Farroupilha (redenção) reunidxs para mais uma Parava Livre na cidade de Porto Alegre.

O tema da parada, qual seja, “Não há vida sem liberdade e sem prazer”, vem com o intuito de rebater todos os discursos que impõe barreiras e acabam por gerar violência contra a população transviante*. É o dia em que iremos às ruas demonstrar que a diversidade sexual existe, deve ser respeitada e ter seus direitos garantidos. Da união de várias vozes, esperamos conquistar mais força nessa luta que é diária, a fim de que se possa emitir um grito uníssono de igualdade e respeito.

Pensando em gozar todos os direitos já consagrados e que ainda queremos consagrar, o G8-Genenalizando também convida a todxs que quiserem ocupar seus corpos a reunirem-se e fazerem mais uma intervenção do grupo dar certo e ser inesquecível!



A ideia é pintar seu corpo com aquilo que achar conveniente, importante ou simplesmente ousado. A intervenção tem caráter de apoio à Parada Livre, reafirmando a ideia de liberdade e prazer proposta pela organização (da que, por sinal, fazemos parte!). Com isso o grupo pretende abrir margens para reflexão acerca do corpo e sexualidade, bem como defender o discurso de que ele é SEU e não da mídia, igreja, Estado ou quaisquer entidades normatizadoras. Aos interessadxs em ocupar o seu corpo com todo o amor e criatividade que o G8-Generalizando pode oferecer, compareçam na XVI Parada Livre e procurem nosso estande.

Não menos importante, lembramos que, junto com a parada, estará acontecendo a VI Marcha Lésbica de Porto Alegre. Aliás, a importância da data não para por aqui: o dia 25/11 é também o no Dia Internacional de Luta Contra a Violência à Mulher**. Nós do G8-Generalizando, enquanto grupo que surgiu com ênfase nos direitos da mulher e que hoje se ampliou de forma a abranger a diversidade sexual e de gênero, bem como desprezar todo o tipo de heteronormatividade, sentimo-nos no dever de convocar a todxs vocês não simplesmente a comparecer na Parada, mas também a refletir sobre a importância da luta contra todo e qualquer tipo de violência.

A VI Marcha Lésbica abrirá alas na XVI Parada Livre no Dia Internacional de Luta Contra a Violência à Mulher. Ironia do destino ou não, essa feliz coincidência servirá para fortalecer outra demanda de extrema importância na nossa luta: a invisibilidade lésbica.  Lésbicas são mulheres, igualmente belas, e sofrem uma violência que acaba sendo mais dolorosa quando não visibilizada. O descaso acaba por ser mais um agressor, pois impede que direitos sejam buscados e carências supridas.

Como podem ter notado, a data terá um significado importantíssimo para o grupo. Ainda assim, esse significado só será pleno com a participação efetiva de todxs. Por isso viemos convocá-los a darem-nos as mãos – ou o corpo inteiro – nesse domingo e fazer com que todo o preconceito, discriminação ou quaisquer geradores de violência sejam abafados pelo nosso amor.

*Transviantes é um termo que foi sugerido pelo advogado do grupo, Daniel Caye, em uma de nossas reflexões sobre formas de abranger toda a diversidade sexual em uma palavra. Sabemos da importância da sigla LGBTTTQI, pois afirma o espaço conquistado pelos grupos sociais que militaram nessa questão, mas acreditamos que a formação de uma unidade fortalece a luta, a começar pela própria expressão utilizada. Trans daria a ideia de transexualidade, transgêro e travestis; via para abranger “viados”, sejam bichas ou sapatas; e antes para lembrar o caráter transitório de tudo isso, numa tendência super queer.

**Dica de leitura sobre a data: http://mulheresemmarcha.blogspot.com.br/2011/11/dia-internacional-de-luta-contra.html (o texto é do ano passado, mas o conteúdo é extremamente válido)