sábado, 30 de março de 2013

Direito à Identidade na Semana de Direitos Humanos

Amores e amoras,

a partir do dia 1º de abril, nessa próxima semana, estará acontecendo, na faculdade de direito da UFRGS, a V Semana de Direitos Humanos. O G8-Generalizando está, junto com os demais grupos do SAJU, participando da construção desse evento que promove abertamente à comunidade uma série de discussões através de painéis de debate, oficinas e intervenções.

Já na data de abertura, segunda-feira, ocorrerá nossa oficina sobre criminalização da homofobia. Acessem o evento no facebook e vejam maiores informações. Além disso, na quarta-feira, dia 03/04, às 19h, teremos nosso painel tratando da identidade trans+¹, sob o enfoque do projeto Direito à Identidade, com a participação dxs nossxs queridíssimxs amigxs Marina Reidel, Lucas Goulart, Luísa Stern e Carina Macedo.

Para quem não lembra, o projeto Direito à Identidade surgiu ainda no final de 2012, a partir de uma parceria firmada com a ONG Igualdade-RS. A ideia foi de acolher uma demanda de grande necessidade e ainda de difícil acesso para a comunidade trans+, corroborando a proposta sajuana de acessibilidade jurídica para a população e promoção dos direitos humanos sob uma ótica crítica. O projeto foi executado em janeiro de 2013, com a ajuda também de parceria firmada com o NUPSEX (Núcleo de Pesquisa em Sexualidade da UFRGS), e consistiu, basicamente, no ajuizamento de nove ações de retificação de registro civil. Os resultados foram extremamente satisfatórios, pois em menos de duas semanas obtivemos sentenças parcialmente procedentes - num sistema judiciário conhecidamente lento - e, em menos de um mês, com os devidos ajustes técnicos necessários, as pessoas que participaram do projeto tiveram seus nomes no registro civil alterados.

É importante salientar o que foi, de fato, nosso Direito à Identidade. Muito além do que simplesmente alterar o nome, preocupamo-nos com a força política e social de tudo o que estava acontecendo. Na construção dos pareceres psicológicos, tratamos de desconstruir ideias retrógradas que visam, por exemplo, as identidades não cisgêneros² como patologias. Posicionamo-nos com convicção sobre o direito individual de ser quem somos, não apenas no tangente à dignidade da pessoa humana, mas principalmente no âmbito privado de crer que o Estado não pode intervir na identidade do indivíduo. Alegamos os efeitos negativos por que passam aquelxs cujo nome não está de acordo com o que são, como constrangimentos públicos no acesso a serviços básicos e primordiais (saúde, educação), dificuldades agravadas para conseguir emprego e tantos outros problemas. Tudo isso fortalecido pelo nosso ordenamento, que sempre tendeu a marginalizar ainda mais as personalidades desviantes do sistema heteronormativo. No entanto, os resultados rápidos do projeto nos deram um pouco de esperança em relação ao nosso futuro. Pelo menos sobre essas questões, criamos uma jurisprudência importante, a qual esperamos não ser mais necessária em pouco tempo – afinal de contas, esperamos por um Brasil onde todxs tenham a possibilidade assegurada para manifestar sua identidade sexual e de gênero sem precisar passar por violências simbólicas e institucionalizadas, a começar pela não obrigatoriedade de um processo judicial para alterar o nome daquelxs que não querem seguir a heteronormatividade.

Isso, contudo, sabemos, é apenas o fortalecimento de uma luta que já vem de alguns anos, e não o começo ou o resultado final.

A fim de fomentar o debate sobre essas questões e dar ainda mais voz àquelxs que o sistema insiste em calar, reforço o convite ao nosso painel de quarta-feira, no salão nobre da faculdade de direito da UFRGS. Confiram as demais palestras clicando aqui e esforcem-se para comparecer.

Há-braços e voz por um mundo melhor. 

1. Leia mais sobre pessoas cis e cissexismo em: http://transfeminismo.com/o-que-e-cissexismo/
2. O termo "trans+", com o sinal de adição, é utilizado como abreviação para expressar uma multiplicidade de identidades como transexual, transgênero ou travesti. O sinal de + é adicionado para transformar o termo trans em um termo "guarda-chuva", englobando todas as identidades trans dentro e/ou fora do sistema heteronormativo binário de gênero. Para mais informações, clique aqui. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Orgasminho #2

Resquícios de um niilismo reprimido.

A infância. Por toda a infância você vai aprender a seguir padrões, andar na linha... Fazer a coisa certa, como dizem, sabe? Muitas atitudes suas serão ignoradas, afinal de contas, você não é maduro o suficiente para compreender seu sentimento. Ninguém vai querer ouvir suas angústias. Ora, crianças lá vão ter motivos para ter angústias? Você vai aprender, finalmente, a engolir o choro e seguir em frente. Vai tirar notas boas, o que não vai ser mais do que sua obrigação. Vai fazer algo errado, e farão te fazer pensar que esse erro é o pior do mundo. Seus pais brigarão por você: não para tê-lo, mas para saber de quem é a culpa pelos seus erros. Não chegarão a uma resposta e você será considerado um monstro. Eles acordarão e fingirão que nada aconteceu, e se você não der bom dia com "uma cara bonita", ficará de castigo e não poderá ver seus amigos.

Ai você segue em frente. Termina o colégio - se conseguir chegar até lá - e todos ficam felizes... Só no dia da festa. No dia seguinte, mais cobranças. A roupa correta, as companhias decentes, os bons modos. O melhor lugar para estudar, é claro, também. Ou então o bom emprego. Ou simplesmente o emprego, para - sabem como é - não virar um vagabundo.Ou uma vagabunda. Aí você acorda de madrugada, num dia aleatório, e olha para trás. Descobre que não aprendeu direito a engolir o choro e... chora. Chora desesperadamente por descobrir que, ao contrário do que dizem os dramáticos, sua vida não foi uma mentira. (Se fosse uma mentira, você acordaria desse coma e passaria a ser feliz). Isso tudo foi simplesmente a verdade: você não é nada além do que permitiram que você fosse. E jamais será algo além disso. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Direito à Identidade: Viva seu nome!

Pessoal, o G8-Generalizando tem orgulho em apresentar o mais novo projeto de luta a favor dos direitos sexuais e de gênero. Para quem não tá ligadx, dá uma conferida no evento do face e confirma presença! (clica aqui pra ir pro evento no Facebook!)

O nome é um direito de todxs. No Brasil, 29 de janeiro é o Dia da Visibilidade Trans.

Para celebrarmos o Dia Nacional da Visibilidade Trans, o G8-Generalizando, a Igualdade-RS e o NUPSEX/UFRGS promovem um mutirão de ações judiciais com o objetivo de conquistar um direito que não é assegurado para travestis e transexuais.

Nessa data, será realizado um ato público em prol da legitimidade dos indivíduos viverem de acordo com o nome que se identificam, e serão entregues diversos processos de Retificação de Registro Civil no Foro Central da cidade de Porto Alegre. É o projeto Direito à Identidade: Viva seu nome!

O evento servirá para colocar em debate a importância de que o Estado ofereça os recursos necessários para que a realização desse tipo de processo ocorra sem os custos, por vezes exorbitantes, e o desgaste excessivo que travestis e transexuais tem tido que arcar para teu seu nome reconhecido, pois hoje em dia isto só é possível ser feito por meio de processo judicial.

Também servirá para chamar a atenção do Supremo Tribunal Federal e do Poder Legislativo para esse problema, pois desde 2010 que a ADIn 4275 tramita no STF, sem perspectiva de julgamento próximo, e temos vários projetos de Lei tramitando no Congresso Nacional, novos e antigos, sem a perspectiva de aprovação. Enquanto isso, o Brasil vai ficando para trás em relação a países como Espanha, Argentina e Uruguai, onde já é possível que travestis e transexuais possam alterar seus nomes diretamente em cartório, sem a necessidade de recorrer ao Judiciário.

Finalmente, o G8-Generalizando, a Igualdade-RS e o NUPSEX se propõem, para além do dia 29 de janeiro, a continuar realizando o processo de troca de nome de maneira gratuita para a população de travestis e transexuais e debatendo o assunto em outras instâncias, marcando nosso desejo por uma sociedade sem preconceitos, na qual cada indivíduo tenha autonomia para realizar as escolhas de como viver sua própria vida.

É através do nome que nós nos identificamos e legitimamos nossas vidas em sociedade. Somos recorrentemente remetidos a nossa identidade civil e é através dela que garantimos nosso acesso aos diversos ambientes e exercemos nossa cidadania.

Ter um nome é segurança de pertencimento no mundo. No caso específico da população de travestis e transexuais, é da negação desse direito e da obrigatoriedade de usar um nome que não corresponde à nossa verdadeira identidade, que decorrem diversas outras formas de discriminação.

Por isso, quando nós não nos encontramos representadxs pelo próprio nome e escolhemos viver através de outra designação, é essencial que o Estado reconheça o direito à identidade, devido ao enorme constrangimento causado a quem é constantemente chamado por um nome com o qual não se identifica.

Aqui fica nosso convite a todxs para que vivam esse dia conosco, celebrando todos os nomes que amamos e que nos fazem ser quem somos!

ATO DO DIA 29/01:

O QUÊ: Oficina e concentração para caminhada  ao Foro Central de Porto Alegre, para entrega de ações de alteração no registro civil
QUANDO: Dia 29/01, com oficina e concentração das 13h às 15h, e caminhada ao Foro Central a partir das 15h
ONDE: Usina do Gasômetro, sala 4, no Mezanino.

Vem com a gente!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Orgasminho #1

Eu odeio.

Eu odeio quando você me olha na rua.
Eu odeio o modo que você me encara.
Eu odeio quando você me olha e não sabe o que pensar.
Eu odeio a cara confusa que você faz quando passa por mim.
Eu odeio quando você resolve sua confusão gritando.
Eu odeio mais ainda os seus sussurros.
Eu odeio quando você sorri enquanto faz isso tudo.
Eu odeio o escárnio em sua voz.
Eu odeio quando você quer me machucar com palavras.

Eu odeio o fato de você conseguir.

Orgasminhos!

Queridxs leitorxs!

É com o coração cheio de orgulho, a cabeça cheia de ideias e o corpo inteiro tomado de prazer que apresentamos uma nova seção do blog do G8-G: os orgasminhos. Queremos compartilhar aqui pequenos pensamentos, frases, imagens, citações, sentimentos. Pequenos retalhos de pensamentos que, ainda que expressos em poucas palavras, mexam com a gente e, com sorte, mexam com vocês também. Vale falar de tudo: amor, dor, política, música, ódio, esperança. A regra é uma só: que seja intenso. Forte. Pulsante. Que seja, enfim, um orgasminho.

sábado, 24 de novembro de 2012

Última chamada: Ocupe seu corpo na XVI Parada Livre, VI Marcha Lésbica e Dia Internacional de Luta Contra a Violência à Mulher




No domingo, dia 25/11 – mais precisamente: amanhã -, estaremos todxs no Parque Farroupilha (redenção) reunidxs para mais uma Parava Livre na cidade de Porto Alegre.

O tema da parada, qual seja, “Não há vida sem liberdade e sem prazer”, vem com o intuito de rebater todos os discursos que impõe barreiras e acabam por gerar violência contra a população transviante*. É o dia em que iremos às ruas demonstrar que a diversidade sexual existe, deve ser respeitada e ter seus direitos garantidos. Da união de várias vozes, esperamos conquistar mais força nessa luta que é diária, a fim de que se possa emitir um grito uníssono de igualdade e respeito.

Pensando em gozar todos os direitos já consagrados e que ainda queremos consagrar, o G8-Genenalizando também convida a todxs que quiserem ocupar seus corpos a reunirem-se e fazerem mais uma intervenção do grupo dar certo e ser inesquecível!



A ideia é pintar seu corpo com aquilo que achar conveniente, importante ou simplesmente ousado. A intervenção tem caráter de apoio à Parada Livre, reafirmando a ideia de liberdade e prazer proposta pela organização (da que, por sinal, fazemos parte!). Com isso o grupo pretende abrir margens para reflexão acerca do corpo e sexualidade, bem como defender o discurso de que ele é SEU e não da mídia, igreja, Estado ou quaisquer entidades normatizadoras. Aos interessadxs em ocupar o seu corpo com todo o amor e criatividade que o G8-Generalizando pode oferecer, compareçam na XVI Parada Livre e procurem nosso estande.

Não menos importante, lembramos que, junto com a parada, estará acontecendo a VI Marcha Lésbica de Porto Alegre. Aliás, a importância da data não para por aqui: o dia 25/11 é também o no Dia Internacional de Luta Contra a Violência à Mulher**. Nós do G8-Generalizando, enquanto grupo que surgiu com ênfase nos direitos da mulher e que hoje se ampliou de forma a abranger a diversidade sexual e de gênero, bem como desprezar todo o tipo de heteronormatividade, sentimo-nos no dever de convocar a todxs vocês não simplesmente a comparecer na Parada, mas também a refletir sobre a importância da luta contra todo e qualquer tipo de violência.

A VI Marcha Lésbica abrirá alas na XVI Parada Livre no Dia Internacional de Luta Contra a Violência à Mulher. Ironia do destino ou não, essa feliz coincidência servirá para fortalecer outra demanda de extrema importância na nossa luta: a invisibilidade lésbica.  Lésbicas são mulheres, igualmente belas, e sofrem uma violência que acaba sendo mais dolorosa quando não visibilizada. O descaso acaba por ser mais um agressor, pois impede que direitos sejam buscados e carências supridas.

Como podem ter notado, a data terá um significado importantíssimo para o grupo. Ainda assim, esse significado só será pleno com a participação efetiva de todxs. Por isso viemos convocá-los a darem-nos as mãos – ou o corpo inteiro – nesse domingo e fazer com que todo o preconceito, discriminação ou quaisquer geradores de violência sejam abafados pelo nosso amor.

*Transviantes é um termo que foi sugerido pelo advogado do grupo, Daniel Caye, em uma de nossas reflexões sobre formas de abranger toda a diversidade sexual em uma palavra. Sabemos da importância da sigla LGBTTTQI, pois afirma o espaço conquistado pelos grupos sociais que militaram nessa questão, mas acreditamos que a formação de uma unidade fortalece a luta, a começar pela própria expressão utilizada. Trans daria a ideia de transexualidade, transgêro e travestis; via para abranger “viados”, sejam bichas ou sapatas; e antes para lembrar o caráter transitório de tudo isso, numa tendência super queer.

**Dica de leitura sobre a data: http://mulheresemmarcha.blogspot.com.br/2011/11/dia-internacional-de-luta-contra.html (o texto é do ano passado, mas o conteúdo é extremamente válido)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Algumas questões sobre corpo, virgindade e “mulheres-fruta”

"Então não importa o que uma mulher faça ou alcance, seu valor ainda depende de sua aparência. Não se aprecia o intelecto da mulher. É tudo relacionado ao corpo, não à mente."

"Como qualquer adolescente, Catarina também queria ter sua primeira experiência sexual com um grande amor. Atualmente, com 20 anos de idade, deixou essa história de contos de fadas de lado e está leiloando sua virgindade na web.” 

“Suelem Aline Mendes da Silva, a Mulher Pêra, candidata a vereadora pelo PT do B em São Paulo, esboçou sua mais nova tática para atrair o eleitorado paulistano para suas bases eleitoreiras. Após atingir a marca de 50 mil seguidores no Twitter, a concorrente a uma cadeira na Câmara da capital divulgou em seu site uma foto em que aparece numa posição ousada, com o número escrito no bumbum – e pedindo votos.”

O primeiro trecho pertence ao documentário “Miss Representation”, de 2011, que versa sobre o tratamento da imagem da mulher na mídia estadunidense.  O segundo é um pedaço de uma notícia recente que gerou grande repercussão nas redes sociais e fora delas. Já o terceiro corresponde a um fato acontecido nas últimas eleições municipais. Embora diferentes, os três trechos tratam, no fim, de uma só coisa: os limites da utilização dos corpos (dos outros).

Nós, seres contemporâneos, racionais, culturais, lógicos, habilidosos e inteligentes, dotados de telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, sentimos necessidade de controlar os corpos de outrem - principalmente se este outro for uma mulher. E não se precisa ir muito longe para comprovar isto: basta acessar um portal de notícias qualquer e olhar rapidamente os comentários. Ou conversar com algumas pessoas sobre a Marcha das Vadias. Ou sentar em um bar e ouvir os comentários sobre a moça de top e shortinho que acabou de passar. Pontos extras se a moça estiver fora dos padrões normativos – se não for alta e magra, por exemplo.

Para muitos, exibir ou vender partes proibidas do corpo além dos “limites das quatro paredes” é um artifício baixo, imoral e vulgar, que desvaloriza a mulher e envergonha todos os que estão a sua volta. Por que, então, algumas pessoas decidem dispor livremente de seus corpos (na mídia ou não), e por que outras pessoas não querem esses mesmos corpos públicos nem autônomos?

É preciso pensar em duas coisas: a utilização autônoma do próprio corpo, como real posse de si mesmo, e a subjugação do corpo ao sistema em que está inserido. Explico-me melhor através de um exemplo: Catarina, ao leiloar sua virgindade na internet, o fez por vontade própria, porque é e se sente dona efetiva de seu corpo e sua vontade, ou o fez porque existe um mercado que anseia pelo seu corpo e por sua virgindade?

A mulher virgem é pura, superior, santa. A virgem encarna o eterno mistério feminino. Já nos disse Simone de Beauvoir, no clássico Segundo Sexo, que a virgem, “...ora temida pelo homem, ora desejada e até exigida, ela se apresenta como a forma mais acabada do mistério feminino.” Muitos viram que Catarina colocou sua virgindade em leilão, mas quantos atentaram para o fato de que há, também, um homem na mesma situação? Quantos sites se dignaram a revelar essa informação? O russo Alexander Stepanov, de 21 anos, está leiloando sua virgindade, mas os lances que recebeu, quando comparados com os da brasileira, são baixíssimos: de acordo com o site Virgins Wanted, o portal do leilão, a virgindade dela já recebeu lances de $255.000, enquanto a dele parou em $2.000.

Não há nada de natural nessa diferença na atribuição de valores: a virgindade feminina não é mais valiosa que a virgindade masculina. Os que objetam isso com “uma chave que abre vários cadeados é útil, mas um cadeado que abre com várias chaves é inútil”, esquecem que a) estamos falando sobre seres humanos com vontades, não sobre objetos inanimados, b) sexo não é necessariamente reprodução (muito menos só penetrativo e heterossexual) e c) essa ideia consegue ser desrespeitosa para qualquer lado que aponte, porque é um dos principais expoentes da série dos argumentos “dois pesos e duas medidas”. Os mesmos que acreditam na “pureza e castidade femininas” e no “legítimo uso masculino da liberdade”, que separam as mulheres em “para transar” e “para casar”, condenam, ao mesmo tempo, o “não” e o “sim” para o sexo de acordo com sua vontade – isso, claro, se pararem para escutar o “não” e o “sim”.

Ou seja: a autonomia e a sujeição estão, nessa situação, intimamente ligadas. Publiciza-se o privado porque se quer, ou porque a adequação à realidade pede. Talvez ambos. Mas o que merece destaque é o paradoxo da relação entre privado e público: os mesmos que querem ver querem esconder; querem o corpo ao seu alcance, mas, ao mesmo tempo, longe de si. Daí que o que transforma um corpo em vulgar não é o uso que se faz dele, porque o corpo em si não é vulgar. Vulgar é o valor que atribuímos ao corpo que não nos apetece, ou que não queiramos que nos apeteça. É a nossa visão simplista - e frequentemente elitista - que transforma uma dita “mulher-fruta” em imoral, e uma modelo internacional em ícone de beleza e classe, quando utilizam a mesma roupa ou não utilizam roupa alguma.

Nem todo uso do corpo quer ser objetificação, mesmo que termine sendo. Resta saber se é mesmo importante julgar se uma determinada exposição (ou a venda, ou a visão, ou o reconhecimento de existência) do corpo é devida ou indevida, através da análise dos motivos. Afinal, a que isso leva, além do fortalecimento de pré-conceitos e a oposições sem sentido entre beleza e inteligência, por exemplo? Talvez devêssemos pensar mais na pressão que esse sistema que anseia por corpos exerce sobre as pessoas, do que nos corpos que se oferecem consensualmente. Afinal, como já nos disse Valesca,

"Tem gente que diz que mostrar o corpo no palco, como eu faço, é também uma forma de submissão. Mas não estou nem aí. O corpo é meu e faço o que quiser com ele e com a minha sensualidade. O problema é meu. Ninguém tem nada a ver com isso."

 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Carta de repúdio contra matéria publicada no jornal Folha de São Paulo dia 24 de setembro de 2012

No dia 24 de setembro de 2012, a Folha de São Paulo publicou uma infeliz reportagem sobre o que considerava serem indicadores de tendências conservadoras e tendências liberais em relação a temas polêmicos da atualidade, entre eles a homossexualidade (foto abaixo). Segue transcrita a carta de repúdio enviada pelo G8-G à Folha, posicionando-se contrariamente apontando o erro terminológico na escolha da palavra "homossexualismo", bem como contra a rasa e discriminatória bipolarização da sociedade que a reportagem se propunha a fazer. 




Caríssimos e Caríssimas editores e editoras da Folha de São Paulo,

Nós, do G8-Generalizando, Grupo dos Direitos da Mulher e de Gênero do Serviço de Assessoria Jurídica Universitária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (SAJU/UFRGS)¹, através da presente carta, objetivamos demonstrar nosso pesar sobre o que julgamos uma inapropriada escolha do termo "homossexualismo", bem como do contexto em que está inserido, em reportagem publicada no dia 24 de setembro de 2012.  Importante ressaltar que a presente carta não se trata de uma tentativa de impor algum tipo de “verdade”, mas sim ampliar o debate trazido na reportagem para um outro enfoque, na busca de um pensamento crítico e renovador acerca das questões de gênero.
Talvez, o primeiro enfoque que deve ser dado, antes de adentrarmos na questão da reportagem propriamente dita, é uma reflexão acerca de como termos e expressões carregam uma força maior do que muitas vezes a imaginada pelo interlocutor. Desse modo, gostaríamos de ressaltar que todas as tentativas de diminuição do discurso crítico com expressões como “ditadura do politicamente correto” não atacam a questão central do problema, mas tentam diminuir aquele que ataca. Desse modo, vemos que há uma redução do discurso a apontamentos que nada tem a ver com o tema. Acreditamos que a utilização de determinadas expressões, cujas origens são as mais diversas, são apenas uma ferramenta de reprodução de discursos opressores a minorias. Por isso, rechaçamos de pronto qualquer tipo de contra-argumento que não ataque nossas fundamentações, mas a bandeira que, com dificuldade e coragem, carregamos.
A reportagem em questão visava a diferenciar em dois grupos diferentes a população. Tal divisão consistia em setorar a sociedade em apenas dois grupos: os conservadores e os liberais. Primeiramente, acreditamos que dividir uma sociedade pluralista e democrática em apenas dois grandes grupos é de tamanho reducionismo que há o risco de afrontas a disseminação de novas ideias, por não se encaixarem em determinado grupo, criando-se uma parcela que estaria à margem do debate social.
A reportagem faz referência ao tratamento que estes dois setores dão à questão da orientação sexual. Havia duas afirmações (ou, ao menos, a reportagem faz alusão a apenas duas) com a qual o entrevistado ou entrevistada deveria concordar. O primeiro problema já pode ser visto na própria definição da temática. O uso do termo “homossexualismo”, além de desatualizado, é carregado de um caráter ofensivo, carregado de preconceitos que perfizeram (e perfazem) a questão da sexualidade. Até 1974, a expressão constava no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais como uma patologia. O verbete foi retirado do manual, pois, desde os anos 1950, sabia-se que a homossexualidade não implicava diferenciações psicológicas. Há de se destacar que essa visão não foi, ainda, completamente superada, inclusive sendo pauta de projeto de lei em nosso Congresso Nacional.
É importante ressaltar que rotular determinado indivíduo por doente mental tem implicações muito sérias para seu desenvolvimento social. “Chamamos pessoas de doentes fisicamente quando o funcionamento de seu corpo viola certas normas anatômicas e fisiológicas; de forma análoga, chamamos de mentalmente insanas as pessoas cuja conduta pessoal viola certas normas éticas, políticas e sociais” (SZASZ, Thomas, 1980, p.29). Ou seja, tratar alguém por doente mental é excluí-lo da sociedade, entender que este viola um conjunto de normas informais que regem o viver. Tal visão é consubstanciada na própria ideia de manicômio, que segrega aqueles que são, supostamente, doentes mentais. Ao nosso ver, a utilização do termo que designa uma doença apenas auxilia a ideia de que a homossexualidade é, ao fim e ao cabo, uma patologia a ser curada e que os homossexuais são um grupo que violam algum tipo de norma de convivência.
Ademais, ressaltamos que as duas opções mostradas na reportagem são, em realidade, igualmente discriminatórias. A afirmação dos (ditos) liberais, ao conter a palavra aceitar, denota, na realidade, uma falta de liberdade, visto que expressa não uma relação de igualdade, mas de superioridade. O ato de tolerar a existência do outro é tão ruim quanto desencorajá-la, vide a opção oposta sugerida pela pesquisa. Segundo José Saramago, “a intolerância é péssima, mas a tolerância não é tão boa quanto parece”. Enquanto a opção conservadora da enquete, que propõe que a sociedade deve “desencorajar” o “homossexualismo”, incita uma ação repressiva e preconceituosa frente às minorias.  
Não é função da sociedade nem do Estado opinar sobre a orientação sexual dos indivíduos integrantes da população, quanto menos “aceitar” ou “desencorajar”, conforme sugerido pelo periódico em enquete. Em uma sociedade democrática apenas se convive com os demais integrantes, não ficando a cargo de ninguém aceitar, (des)autorizar determinado grupo ou comportamento.
Por fim, gostaríamos de destacar que a divisão binária de diversos problemas sociais deve ser sempre evitada. Ao dizer, por exemplo que a pobreza ou a) está ligada à falta de oportunidades iguais ou b) ligada à preguiça das pessoas, a reportagem desmerece qualquer análise sociológica séria a respeito do tema.
Agradecemos pela atenção,
Cordialmente,
G8-Generalizando

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

GUEST POST: Nesse National Coming Out Day, não deixe a empatia no armário



Ontem foi o National Coming Out Day - o dia nacional de "sair do armário". A iniciativa é feita para trazer ao Brasil o movimento sobre o tema, que é feito desde 11 de outubro de 1988, nos EUA, e é celebrado também em países como Austrália, Canadá e Alemanha. A proposta levantada aqui não é determinar um dia para se sair do armário, mas sim levantar o debate sobre a importância (ou não) de mostrar-se publicamente como "diferente".

“Todxs têm que se assumir.”
 “O mau do movimento LGBTQ são xs gays/trans que não se assumem.”
“Tem que ter coragem pra viver e ser feliz.”

Hoje é o National Coming Out Day - dia nacional de sair do armário - e o tenho ouvido muito isso. Não só hoje, são falas comuns, e me entristecem. Entendo a iniciativa de quem deseja felicidade dxs LGBTQ, mas gostaria de pedir um pouco mais de empatia e de compreensão. Vamos, por favor, lembrar que se assumir com segurança é um privilégio que nem todxs têm - e que exigir isso, em nome de um movimento social ou, pior, fazê-lo em tom paternalista, como quem sabe o que é melhor para x outrx, é injusto pra dizer o mínimo. 

Com a palavra privilégio não pretendo desmerecer de maneira nenhuma o sofrimento e a coragem que eu imagino que o ato de se assumir exige de qualquer umx, em qualquer classe, cultura ou ambiente familiar. Viver a identidade sempre exige sacrifício, e o sacrifício feito por nós é sempre o maior - e tudo bem. Sei que é difícil olhar para a própria vida e se enxergar umx privilegiadx, nossa vida sempre é a norma. Mas, nesse dia, peço menos dedos apontados àquelxs que não têm condições de assumir quem são. Seja por medo ou real possibilidade de serem expulsxs de casa, de serem agredidxs na rua, de perderem o amor da família, de serem rejeitadxs na comunidade em que vivem - por medo ou real possibilidade de algum desses exemplos, de todos ou de nenhum.

Não devia ser novidade que tem quem pague o preço da própria identidade com a vida. Ou com o emprego, com a carreira, com o isolamento dos amigos e dos familiares, com a integridade física e psicológica. É ingênuo, sinto dizer, afirmar que só a felicidade aguarda para além da porta do armário. Pensamento otimista, no máximo. Aos que conseguiram e se encontraram do outro lado, toda a felicidade do mundo - mas não são delxs que falo aqui. 

Cabe a nós, assumidxs e aliadxs privilegiadxs, que podemos viver nossas identidades e ideologias com um mínimo de segurança, lutar pra construir um mundo em que TODXS possam ser quem são, sem medo. Nesse National Coming Out Day, que se celebre xs amigxs que estão fora do armário e que se apóie, sem julgamentos, xs que ainda estão. Que fiquem segurxs até que o lado de fora possa recebê-lxs. Hoje e sempre, que se apontem menos dedos e se estendam mais as mãos.

Natália Otto, estudante de jornalismo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Retrospectiva 2012/1


 O primeiro semestre de 2012 foi, sem dúvida, um período de muito crescimento para o G8-Generalizando. Por meio de uma série de intervenções e atividades articuladas com a comunidade e com os movimento sociais, marcamos ainda mais fortemente nossa posição de combate às opressões de gênero e às discriminações de qualquer espécie. Dá uma olhada no que rolou no semestre passado e fica ligadx no que vem por aí!